... BRASIL: ‘Uma revolução em curso’: conheça a educação afrocentrada do Quilombo dos Prazeres (PE)

Espaço ajuda a preservar a cultura e resistência afro-brasileira

 

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Lucas dos Prazeres é guardião dos saberes do Quilombo dos Prazeres, arte-educador e músico | Crédito: Ravaneli Souza

 

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O Quilombo dos Prazeres, localizado no Morro da Conceição, em Recife (PE), guarda saberes pouco conhecidos pela sociedade em geral. O espaço ajuda a preservar a cultura e resistência afro-brasileira, por meio de manifestações artísticas e de um método educacional afrocentrado. 

Ao Conversa Bem Viver, Lucas dos Prazeres, guardião dos saberes do Quilombo dos Prazeres, arte-educador e músico, conta sobre o método revolucionário de ensino, construído a partir da cultura popular, que vem sendo desenvolvido no território. 

“O que ensino na essência é que os educadores não precisam levar para a escola a cultura específica do meu território, do Quilombo dos Prazeres. Eu conto nossa experiência de como transformamos a praça pública em sala de aula. Eles podem replicar essa dinâmica utilizando as culturas e narrativas de seus próprios territórios, transformando as praças locais em espaços de educação e construção cultural. Uma revolução está em curso no Brasil”, relata.

Confira a entrevista completa:

Brasil de Fato – O que é o Quilombo dos Prazeres?

Lucas dos Prazeres – O Quilombo dos Prazeres fica na Zona Norte do Recife, mais precisamente no Morro da Conceição, que é um alto que tem pouco mais de 120 anos — está completando 123 anos. Antes de ser Morro da Conceição, aquele território já tinha sido ocupado por trabalhadores da zona canavieira, da Mata Norte e Mata Sul, onde existem as plantações de cana-de-açúcar. 

Essa população rural veio para Recife atrás de melhores condições de vida e ocupou diversas regiões, entre elas o Alto da Boa Vista, que depois se transformou no Morro da Conceição.

Toda essa população que veio da zona rural para o centro do Recife trouxe consigo suas dores, suas esperanças, mas também suas tecnologias enquanto sociedade e comunidade, entre elas as culturas e expressões populares. 

Maracatu, Frevo, a quadrilha, a Ciranda; todas essas expressões até hoje convivem harmoniosamente na Praça do Morro da Conceição. Então, eu costumo dizer que o Morro da Conceição é uma encruzilhada dos saberes, onde todas as expressões artísticas e culturais de Pernambuco se encontram e convivem harmoniosamente.

Como entra sua avó, Dona Conceição, no meio dessa história? Como ela se torna uma parte fundante de toda essa ancestralidade?

Imagine uma população que não tem acesso nem ao trabalho, quem dirá a serviços públicos fundamentais que já são Lei, previstos no Artigo 5º, mas que mesmo assim sofrem para chegar a essa população em vulnerabilidade. 

Lá no Morro da Conceição, foram essas pessoas que se insurgiram e começaram a cuidar de si. Você consegue encontrar esse tipo de insurgência comunitária em diversas regiões do país. As comunidades fazendo suas escolas comunitárias, dando um jeito de se cuidar na medicina básica com seus chás, escalda-pés, compressas quentes e frias; tecnologias que vêm de outras civilizações e gerações, e que chegam aqui como insurgência na medicina.

Imagine que uma população dessa também não tem condições de ter medicina mental, de ir a um psicólogo ou a um divã. Então, é uma população que se resolve entre si para se manter resistindo e resistente. É aí que a minha avó entra em campo. Ela era benzedeira e rezadeira. Houve um momento na população brasileira em que houve muitas benzedeiras e rezadeiras, até porque essa prática não é restrita a uma religião só. Existiam rezadeiras nas aldeias indígenas, nos quilombos e na comunidade católica. É uma prática religiosa.

A figura da benzedeira sempre foi essa rede de apoio, seja física — trazendo cuidados básicos e primários à saúde — seja mental, acolhendo as pessoas com uma escuta atenta e ativa. Essa rede de apoio entendia e repassou para nós a ideia de rede de apoio como patrimônio imaterial. 

Nós entendemos patrimônio imaterial muitas vezes no âmbito da gastronomia, como o acarajé e a tapioca, ou nas expressões artísticas, como o Frevo, que é patrimônio da humanidade, e o Maracatu, que é patrimônio do Brasil. Mas eu nunca ouvi outra pessoa, a não ser minha avó, trazer essa ideia de patrimônio imaterial na dimensão do próprio acolhimento comunitário. A rede de apoio comunitária como uma tecnologia periférica comunitária que já é patrimônio imaterial.

Ela exercia essa rede de apoio com muito orgulho, nos ensinando esse princípio. Foi através da benzedagem que ela deixou essa herança. A casa dela, o sítio no Morro da Conceição — o Quilombo dos Prazeres —, depois que ela se foi, ficou com a herança de ser rede de apoio. O bairro frequentava muito a casa dela para se benzer, para ser acolhido e ouvido. 

Dos sete filhos que ela pariu ali dentro, duas viraram pedagogas, professoras e pesquisadoras: minha tia Lúcia e minha mãe, a caçula, Conceição dos Prazeres. Elas disseram: “Este sítio vai continuar sendo rede de apoio da comunidade”.

Como elas não eram benzedeiras, mas professoras, decidiram que essa rede de apoio passaria a ser através do acolhimento educacional. Havia muitas crianças sozinhas em casa, e essa não é uma realidade apenas do Morro da Conceição, mas de muitas periferias ao redor do Brasil. Mães de periferia precisam sair para trabalhar, não têm onde deixar os filhos e não têm dinheiro para pagar babá. As crianças que têm escolaridade ficam sozinhas no contraturno; as que não têm acesso à rede pública de ensino ficam o dia todo. Muitas vezes o mais velho cuida do mais novo, mas esse mais velho também é uma criança.

Elas identificaram essa dor profunda e disseram: “É sobre isso. Este território do Quilombo dos Prazeres será dedicado às crianças e elas não precisarão mais ficar sozinhas em casa”. A quantidade de crianças que coubesse passaria o período integral ou o contraturno na casa de minha mãe. 

Essas mães passaram a voltar do trabalho e buscar seus filhos no Quilombo dos Prazeres de banho tomado, cheirosos, com a tarefa feita e lanchados. Para uma mãe trabalhadora, encontrar o filho bem e alimentado no final do dia não tem dinheiro que pague. Para nós, não tem preço exercer a herança de minha avó de ser apoio comunitário, reforçando a ideia da rede de apoio como patrimônio.

Depois de um tempo, a prefeitura do Recife e o poder público nos reconheceram como tecnologia e como ONG, passando a contribuir com merenda, fardamento e material didático. Isso no início da década de 80, entre 1980 e 1981. Quando elas perceberam que aquele material didático não correspondia à realidade das crianças — por exemplo, com perguntas sobre o final de semana na fazenda do vovô, sendo que nenhuma delas tinha um avô com fazenda —, sentiram necessidade de adaptar o material. 

Elas trouxeram a realidade local: o avô que é Caboclo de Lança, o tio passista de Frevo, o irmão que sai na quadrilha ou toca percussão na escola de samba. Isso fazia parte da realidade daquele território, a encruzilhada dos saberes.

Elas adaptaram o currículo trazendo esse recorte sociocultural para dentro da sala de aula. Em 1984, entenderam que aquelas adaptações não eram conteúdo do Estado, mas conteúdo autoral. Elas sistematizaram tudo e criaram uma metodologia chamada Aprendizagem pela Prática Cultural. Elas não sabiam que, historicamente, estavam fundando um dos primeiros métodos de ensino afrocentrados em Pernambuco, talvez no Brasil, em 1984.

Hoje você tem viajado o Brasil para levar adiante esse método educacional que deu certo no Quilombo dos Prazeres. Como surgiu esse processo?

Eu nasci em 1984, quando o método foi fundado. Elas começaram a aplicar todas as ideias em mim; fui um laboratório vivo, a maior cobaia dessa metodologia. Elas diziam: “Meu Deus, se isso der errado, vamos estragar o menino”. Mas tenho muita honra de carregar isso no meu corpo memorial, porque o corpo preserva a memória do que você vivencia.

Tenho essa vivência de toda a metodologia repassada através da oralidade. Nem tudo o que elas criaram está escrito; temos essa força do repasse oral. Por isso, hoje há a necessidade de registrar toda essa vivência de 1984 até 2024, quando o método completou 40 anos de atividade. 

Elas já estão idosas e recebendo homenagens em vida, mas acredito que a profundidade do trabalho delas ainda é pouco reconhecida, pois recorta um ciclo da educação no Brasil. Elas trouxeram as culturas para dentro do território e da ementa escolar. Elas sofreram um apagamento como guardiãs que ajudaram o Brasil a enxergar algo que só em 2005 se transformou na Lei 10.639. 

Quando o Brasil começou a discutir essa lei, entre 2003 e 2005, elas já faziam isso há mais de 20 anos. Elas foram acionadas para trazer a reflexão da prática e da bagagem que tinham. Na época, o Governo Federal criou comissões ao redor do Brasil e elas fizeram parte dessas comissões, inclusive de uma mais seleta que veio para Brasília escrever o texto que deu origem à Lei 10.639. Temos muito orgulho disso. Imagine duas professoras periféricas que começaram essa discussão na prática nos anos 80, participaram desse momento importante em 2005, e em 2024 ainda se fala pouco dessas duas pioneiras.

Desde 2024, venho fazendo esse trabalho de acionar instituições parceiras para que elas sejam reconhecidas e vistas. Quando comecei esse trabalho, elas me disseram: “Lucas, você tem toda a metodologia no seu corpo e na sua oralidade. Você foi a pessoa que mais vivenciou, e a vivência salvaguarda o saber”. 

Além de levar isso na minha música, nos meus CDs, roteiros de teatro e espetáculos de dança, elas me nomearam embaixador e presidente do Instituto Quilombo dos Prazeres. Elas disseram: “Nosso tempo passou, estamos vivas para as homenagens, mas quem vai para o campo é você”.

Peguei esse axé com muita honra e passei a escrever oficinas, shows e uma formação para professores chamada Reaprender Brincando. Atualizei para pautas que na época eram tabus ou estavam engatinhando e hoje estão aquecidas. O Reaprender Brincando é um acompanhamento continuado para instituições educacionais, escolas e academias. É uma mentoria de 12 meses. 

Como nem todas as instituições podem adquirir a mentoria longa, fazemos uma formação de três dias. Em Brasília, abrimos 30 vagas e tivemos 187 inscritos. Abrimos uma segunda turma, totalizando 60 professores, mas ainda não conseguimos acolher todos os inscritos. Já estamos nos organizando para voltar. 

O que ensino na essência é que os educadores não precisam levar para a escola a cultura específica do meu território, do Quilombo dos Prazeres. Eu conto nossa experiência de como transformamos a praça pública em sala de aula. Eles podem replicar essa dinâmica utilizando as culturas e narrativas de seus próprios territórios, transformando as praças locais em espaços de educação e construção cultural.

Uma revolução está em curso no Brasil. Achei que precisaria convencer muitos professores, mas vejo que muitos já estão disponíveis para refletir e trazer suas experiências. Não dou aula para ninguém; é uma troca de saberes. Cada educador traz a vivência de seu bairro ou município. Em Brasília, falamos com muitos professores de Ceilândia, que já é quase uma cidade imensa. Quando eles trazem essa dinâmica, eu aprendo sobre outro Brasil. Através dessa comunidade, um Brasil que o Brasil não conhece está se encontrando, se reconectando e montando uma revolução na educação brasileira.

Conversa Bem Viver

Em diferentes horários, de segunda a sexta-feira, o programa é transmitido na Rádio Super de Sorocaba (SP); Rádio Palermo (SP); Rádio Cantareira (SP); Rádio Interativa, de Senador Alexandre Costa (MA); Rádio Comunitária Malhada do Jatobá, de São João do Piauí (PI); Rádio Terra Livre (MST), de Abelardo Luz (SC); Rádio Timbira, de São Luís (MA); Rádio Terra Livre de Hulha Negra (RN), Rádio Camponesa, em Itapeva (SP), Rádio Onda FM, de Novo Cruzeiro (MG), Rádio Pife, de Brasília (DF), Rádio Cidade, de João Pessoa (PB), Rádio Palermo (SP), Rádio Torres Cidade (RS); Rádio Cantareira (SP); Rádio Keraz; Web Rádio Studio F; Rádio Seguros MA; Rádio Iguaçu FM; Rádio Unidade Digital ; Rádio Cidade Classic HIts; Playlisten; Rádio Cidade; Web Rádio Apocalipse; Rádio; Alternativa Sul FM; Alberto dos Anjos; Rádio Voz da Cidade; Rádio Nativa FM; Rádio News 77; Web Rádio Líder Baixio; Rádio Super Nova; Rádio Ribeirinha Libertadora; Uruguaiana FM; Serra Azul FM; Folha 390; Rádio Chapada FM; Rbn; Web Rádio Mombassom; Fogão 24 Horas; Web Rádio Brisa; Rádio Palermo; Rádio Web Estação Mirim; Rádio Líder; Nova Geração; Ana Terra FM; Rádio Metropolitana de Piracicaba; Rádio Alternativa FM; Rádio Web Torres Cidade; Objetiva Cast; DMnews Web Rádio; Criativa Web Rádio; Rádio Notícias; Topmix Digital MS; Rádio Oriental Sul; Mogiana Web; Rádio Atalaia FM Rio; Rádio Vila Mix; Web Rádio Palmeira; Web Rádio Travessia; Rádio Millennium; Rádio EsportesNet; Rádio Altura FM; Web Rádio Cidade; Rádio Viva a Vida; Rádio Regional Vale FM; Rádio Gerasom; Coruja Web; Vale do Tempo; Servo do Rei; Rádio Best Sound; Rádio Lagoa Azul; Rádio Show Livre; Web Rádio Sintonizando os Corações; Rádio Campos Belos; Rádio Mundial; Clic Rádio Porto Alegre; Web Rádio Rosana; Rádio Cidade Light; União FM; Rádio Araras FM; Rádios Educadora e Transamérica; Rádio Jerônimo; Web Rádio Imaculado Coração; Rede Líder Web; Rádio Club; Rede dos Trabalhadores; Angelu’Song; Web Rádio Nacional; Rádio SINTSEPANSA; Luz News; Montanha Rádio; Rede Vida Brasil; Rádio Broto FM; Rádio Campestre; Rádio Profética Gospel; Chip i7 FM; Rádio Breganejo; Rádio Web Live; Ldnews; Rádio Clube Campos Novos; Rádio Terra Viva; Rádio interativa; Cristofm.net; Rádio Master Net; Rádio Barreto Web; Radio RockChat; Rádio Happiness; Mex FM; Voadeira Rádio Web; Lully FM; Web Rádionin; Rádio Interação; Web Rádio Engeforest; Web Rádio Pentecoste; Web Rádio Liverock; Web Rádio Fatos; Rádio Augusto Barbosa Online; Super FM; Rádio Interação Arcoverde; Rádio; Independência Recife; Rádio Cidadania FM; Web Rádio 102; Web Rádio Fonte da Vida; Rádio Web Studio P; São José Web Rádio – Prados (MG); Webrádio Cultura de Santa Maria; Web Rádio Universo Livre; Rádio Villa; Rádio Farol FM; Viva FM; Rádio Interativa de Jequitinhonha; Estilo – WebRádio; Rede Nova Sat FM; Rádio Comunitária Impacto 87,9FM; Web Rádio DNA Brasil; Nova onda FM; Cabn; Leal FM; Rádio Itapetininga; Rádio Vidas; Primeflashits; Rádio Deus Vivo; Rádio Cuieiras FM; Rádio Comunitária Tupancy; Sete News; Moreno Rádio Web; Rádio Web Esperança; Vila Boa FM; Novataweb; Rural FM Web; Bela Vista Web; Rádio Senzala; Rádio Pagu; Rádio Santidade; M’ysa; Criativa FM de Capitólio; Rádio Nordeste da Bahia; Rádio Central; Rádio VHV; Cultura1 Web Rádio; Rádio da Rua; Web Music; Piedade FM; Rádio 94 FM Itararé; Rádio Luna Rio; Mar Azul FM; Rádio Web Piauí; Savic; Web Rádio Link; EG Link; Web Rádio Brasil Sertaneja; Web Rádio Sindviarios/CUT.

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