Ivonio Barros Revolta de Barué: moçambicanos em luta contra o colonialismo português Trabalhos exaustivos e alistamento para combater incursões das forças alemãs geraram indignação na população do território em 1917 Estevam Silva - Opera MundiSão Paulo - 27 de março de 2026, às 17:00 Há 109 anos, em 27 de março de 1917, eclodia em Moçambique a Revolta de Barué, uma das mais importantes insurreições contra o domínio colonial de Portugal. O levante teve início no antigo Reino de Barué, um dos últimos Estados africanos independentes no território de Moçambique, notável pela resistência aguerrida contra o avanço dos colonizadores. A revolta se estendeu até meados de 1918, quando os últimos focos insurgentes foram esmagados pelas tropas portuguesas. A repressão foi brutal, deixando milhares de nativos mortos e centenas de vilarejos destruídos. O Reino de Barué Localizado no Vale do Rio Zambeze, na África Meridional, o Reino de Barué surgiu como uma província do Império Monomotapa, um Estado dos povos Xona que ocupava parte dos atuais territórios de Zimbábue e Moçambique. Conforme a tradição oral, os reis de Barué eram descendentes de Matope, filho do lendário rei Nyatsimba Mutota. Eles seriam responsáveis por criar uma poderosa dinastia, cujos governantes eram conhecidos pelo título real de Makombe. Incomodados com a cobrança abusiva de tributos, os Makombe decidiram se separar do Império Monomotapa. Assim, no início do século 17, Barué se tornou um reino independente, governado a partir de Missongue, a antiga capital. A emancipação do Reino de Barué ocorreu em paralelo com a intensificação das ofensivas coloniais portuguesas no Vale do Zambeze. Inicialmente, os portugueses tentaram estabelecer o controle sobre a região impondo o sistema dos “prazos” — concessões de terras feitas pela Coroa Portuguesa para mercadores, exploradores e soldados, que se estendiam por três gerações. Diversas expedições portuguesas tentaram dominar o Reino de Barué, mas foram neutralizadas pela forte resistência militar dos nativos e prejudicadas pelas disputas internas entre os próprios colonizadores. Além de ter um exército bem organizado, o Reino de Barué controlava rotas comerciais estratégicas e dominava o comércio local do ouro de aluvião, do marfim e, mais tarde, da cera de abelha. Essas atividades econômicas fortaleciam a economia do reino e financiavam a aquisição de armas modernas, possibilitando que Barué mantivesse sua autonomia mesmo quando o Império Monomotapa começava a entrar em colapso e a sucumbir às ofensivas coloniais. A conquista portuguesa O domínio colonial de Portugal sobre Moçambique ganhou força no fim do século 19, após ser legitimado e respaldado pela partilha da África, acordada pelas potências europeias durante a Conferência de Berlim (1884-1885). Visando fortalecer sua reivindicação sobre os territórios africanos, Portugal intensificou as ofensivas militares contra as chefaturas e organizações políticas nativas, lançando as chamadas “Campanhas de Pacificação e Ocupação”. Seguiram-se vários confrontos extremamente violentos, resultando no massacre de milhares de moçambicanos. A conquista de Barué era vista por Portugal como uma missão prioritária. Além de suas riquezas e de sua localização estratégica, Barué era o epicentro da resistência contra o domínio colonial. Os governantes de Barué eram conhecidos por apoiar os chefes rebeldes locais, fornecendo armas e soldados para lutar contra os portugueses. Os conflitos na região também preocupavam os portugueses em função da proximidade com a fronteira com a Rodésia Britânica. A instabilidade regional poderia ser evocada como um pretexto para que os ingleses avançassem sobre as colônias portuguesas — em especial a região de Manica, há muito tempo cobiçada pela Coroa Britânica. A princípio, os portugueses tentaram controlar Barué indiretamente, por meio da Companhia de Moçambique, uma companhia majestática que já detinha o domínio sobre Manica e Sofala. Diante da resistência dos nativos, os colonizadores lançaram uma série de expedições. Os combatentes de Barué conseguiram resistir aos avanços portugueses nas Batalhas de Chideu e Mafunda. Em 1890, a prisão de Manuel António de Sousa pelas tropas britânicas deu a Makombe Hanga, o rei de Barué, a possibilidade de estabelecer alianças militares com chefes autóctones. Makombe Hanga também recebeu ajuda de um “svikiro”, um médium Xona a quem se atribuía a capacidade mística de transformar as balas dos inimigos em água — uma lenda que impulsionou a adesão de voluntários às forças insurgentes. Apesar da luta aguerrida dos nativos, as tropas portuguesas eram mais numerosas e bem equipadas. Em julho de 1902, o oficial português João de Azevedo Coutinho liderou uma enorme expedição colonial com cerca de 16.000 soldados, incluindo tropas regulares e sipaios africanos. A campanha se estendeu por cerca de três meses, terminando com a derrota das forças de Makombe Hanga. O Reino de Barué deixou de existir como entidade política independente, sendo dividido em chefaturas e plenamente integrado aos domínios coloniais de Portugal em Moçambique. A Revolta de Barué A conquista do Reino de Barué permitiu que Portugal consolidasse e fortalecesse a administração colonial em Moçambique, mas não impediu o acirramento das tensões. Expropriados de suas terras e submetidos aos abusos dos colonizadores, os nativos seguiam ansiando fortemente por uma insurreição. Milhares de habitantes de Barué foram forçados ao trabalho escravo nas lavouras, nas minas e nas obras de infraestrutura tocadas pela metrópole. A população civil se tornou alvo constante da violência das tropas coloniais, com inúmeros registros de massacres e estupros de mulheres e crianças. As terras dos camponeses foram expropriadas pela Companhia de Moçambique e redistribuídas entre os colonizadores. Privados de seus meios de subsistência, os nativos enfrentaram a fome e a miséria. Milhares de pessoas foram forçadas a deixar Barué em busca de melhores condições de vida na Rodésia do Sul e no Transvaal. A situação se agravou ainda mais a partir de 1914, após a eclosão da Primeira Guerra Mundial. Lutando ao lado dos Aliados, Portugal intensificou a extração de recursos e o recrutamento forçado de moçambicanos para apoiar o esforço de guerra. A construção de uma estrada cortando o território de Barué, utilizando trabalho compulsório e permeada por deslocamentos e ataques violentos contra a população local, causou indignação entre a população. Igualmente revoltante foi o alistamento compulsório de nativos moçambicanos para combater as incursões das forças alemãs vindas da Tanzânia. Decididas a lutar contra o domínio de Portugal, as lideranças políticas de Barué articularam um movimento insurgente. A revolta ganharia dimensão multiétnica, unificando grupos e lideranças rivais no esforço comum para expulsar os colonizadores. Entre os comandantes da revolta estavam Nongue-Nongue, filho ou irmão do rei Makombe Hanga, e Makosa, possivelmente seu primo e rival na disputa pelo trono de Barué. A coesão do movimento foi em grande parte mantida graças aos esforços de Mbuya, líder espiritual de Barué e uma das principais mobilizadoras das massas. A Revolta de Barué teve início em 27 de março de 1917. Após reunir um exército com aproximadamente 15 mil combatentes, os rebeldes lançaram um ataque contra as instalações portuguesas em Chemba, Tambara e Chiramba. Eles receberam amplo apoio dos camponeses, que iniciaram revoltas em Sena e Tonga. Os rebeldes de Barué prosseguiram a ofensiva empregando três frentes simultâneas. A primeira, chefiada por Nongue-Nongue e Cuedzani, avançou rumo às regiões de Mungari e Tete. A segunda, liderada pelos chefes Tauara, N’senga e Chicunda, atacou as tropas portuguesas em Zumbo e Cachomba. A terceira frente, comandada por Makosa e N’garu, atacou instalações da Companhia de Moçambique e partiu para a captura de Sena. Guerreiros de Barué.Rádio Moçambique A repressão Até o fim de maio de 1917, os revolucionários de Barué acumularam uma série de vitórias contra as forças portuguesas, estendendo o seu controle sobre parte substancial do território moçambicano e expulsando dezenas de milhares de colonizadores. O governo português reagiu mobilizando mais de 30.000 soldados, apoiados por artilharia pesada, com metralhadoras e canhoneiras no Rio Zambeze. Contando com superioridade bélica e numérica, o Exército Português acabaria por subjugar as forças rebeldes, prejudicadas também pelas disputas internas entre as lideranças de Barué. Derrotado em uma batalha em Mungari, Nongue-Nongue foi forçado a fugir para a Rodésia do Sul. Makosa então se autoproclamou Makombe de Barué e assumiu a liderança do movimento insurgente, instalando uma célula revolucionária nas montanhas próximas à fronteira rodesiana. Makombe Makosa conseguiu prolongar a revolta até o ano seguinte e chegou a conduzir ataques bem sucedidos aos postos portugueses em Macanga, Changara e Catandica. Em meados de 1918, no entanto, ele seria derrotado em um potente ataque-surpresa perpetrado pelas tropas coloniais. A repressão foi extremamente violenta. Centenas de aldeias foram destruídas, plantações foram queimadas e milhares de moçambicanos foram assassinados pelas tropas portuguesas. A despeito da violência colonial, alguns focos insurgentes seguiram sendo organizados até 1920, quando foram definitivamente debelados. Apesar da derrota, a Revolta de Barué teve o papel importante de demonstrar a capacidade de mobilização e resistência da população local, inspirando novos movimentos insurgentes e servindo como precursora das lutas pela libertação que culminaram na independência de Moçambique em 1975. fonte: https://operamundi.uol.com.br/pensar-a-historia/revolta-de-barue-mocambicanos-em-luta-contra-o-colonialismo-portugues/ Próximo artigo: Mês das Mulheres e das Raparigas - Moçambique 2026 Próximo