... Cfemea-MST: Mulheres de acampamentos e assentamentos do Distrito Federal iniciam etapa de cuidado coletivo

Começou hoje, 6/10, uma nova etapa da preparação do Laboratório Orgnizacional Feminista para a Sustentação da Vida no DF. As participantes são mulheres ativistas e militantes do Movimento das Trabalhadoras e dos Trabalhadores Sem Terra da região do Distrito Federal, Minas Gerais e Goiás (do entorno do DF), acampadas e assentadas. A coordenação está sendo responsabilidade de uma equipe do Cfemea e companheiras do Setor de Gênero do MST.

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Nesses três dias (6, 7 e 8) as mulheres que se inscreveram participarão de uma jornada de cuidado coletivo e auto cuidado entre ativistas e debaterão a metodologia que vai ser usada no Laboratório.

No dia 2 de fevereiro de 2026 começará a parte “laboratorial” em três etapas, a primeira presencial de aproximadamente um mês, a segunda etapa será híbrida, parte virtual (online) e parte presencial com pequenos grupos locais, a terceira etapa, ao final, será presencial de aproximadamente dez dias. Mas não acaba aí. Após o Laboratório, as mulheres, que se organizarem em propostas de formação de cooperativas ou empresas coletivas, vão participar de processos de aprendizado e trocas por oito meses para criar suas iniciativas. Durante essa etapa, em conformidade com o que elas forem decidindo sobre a iniciativa econômica que desejarem criar, vão ser oferecidos cursos, processos de mentoria, assessoramentos técnicos e jurídicos e etapas de incubação de empresas.

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Nesse Laboratório Organizacional Feminista para a Sustentação da Vida está sendo dada preferência às mulheres de acampamentos do MST e assentamentos mais próximos do Centro de Formação em Agroecologia Gabriela Monteiro. Participarão também mulheres de Goiás e Minas Gerais, para aprenderem o processo e a metodologia, para poderem ajudar na realização de outros Laboratórios que pretendemos realizar nesses estados.

Como iniciou

O Cfemea se articulou com os setoriais de Gênero e de Direitos Humanos do Movimento das Trabalhadoras e Trabalhadores Sem Terra na Regional da Ride DF (Região Integrada de Desenvolvimento do Distrito Federal e Entorno), que envolve 30 municípios de Minas Gerais e de Goiás no Entorno do Distrito Federal, para criar de forma conjulgada e colaborativa uma experiência de promoção da autonomia econômica das mulheres que participam de acampamentos e assentamentos na região. Especialmente no DF, em Flôres de Goiás e em Buritis (MG). 

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Foi criada uma coordenação para estudar as melhores formas de gerar essa experiência e ao longo de dois meses o projeto foi tomenda forma. Como os recursos própios do Cfemea são limitados, ao longo das discussões foi-se limitando a área geográfica e o número de acampamentos e assentamentos participantes do primeiro Laboratório a se realizar. Serão inscritas entre 60 e 70 mulheres e se dará preferência àquelas que estão acampadas ou assentadas nas proximidades do Centro de Formação Popular Agroecológica Gabriela Monteiro (perto de Brazlândia-DF). Mas também participarão dois grupos de cinco mulheres de Flôres de Goiás e Buritis, para que essas possam começar a se preparar para serem também multiplicadoras da metodologia.

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Próximos passos

Inicialmente planejado para começar em 7 de outubro, o Laboratório propriamente dito foi transferido para começar em 2 de fevereiro de 2026, para que se possa organizar de forma cuidadosa a seleção das participantes e buscar os meios mais adequados para que elas possam participar sabendo que vão conseguir cumprir a jornada integral. Afinal, as que estiverem interessadas em participar, farão uma jornada de um ano. Será um processo longo de aprendizados, de experiência e vivência. As participantes contarão com apoio de transporte e alimentação e uma bolsa de R$ 400,00 por mês no período híbrido do laboratório e ajuda para acesso à internet.

O Cfemea investiu na adequação das instalações do Centro de Formação Popular em Agroecologia Gabriela Monteiro (água, luz, internet, infraestrutura - telhado e tanques -  e higienização de colchões e cadeiras, e materiais e equipamentos de cozinha) e em dois mutirões com a participação de companheiros e companheiras do MST da região, foi feito o aceiro e a limpeza do terreno e pintura.

No período que se inicia hoje (6/10) até 2/2/2026, serão realizadas novas reuniões nos acampamentos e assentamentos, organizadas rodas de autocuidado e cuidado coletivo, verificadas as condições de cada uma para participar e, também, aprofundados os processos de planejamento de todas as atividades de organização e de formação do Laboratório, incluindo a preparação do ambiente digital da plataforma da Universidade Livre Feminista Antirracista, que será utilizada pelas participantes do Laboratório.

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Começou o segundo dia (7/10/25) da etapa inicial do Laboratório Organizacional Feminista para a Sustentação da Vida, que o Cfemea e o MST estão realizando em Brasília no Centro de Educação Popular e Agroecologia Gabriela Monteiro (Brazlândia-DF).

Ontem, para relembrar, foi dia de encontros e reconhecimentos umas das outras, explicação da proposta do Laboratório e realização de combinados (acordos) entre as participantes. Uma das expressões da atividade de ontem pode ser vista na produção das participantes em seus grupos de trabalho na fotografia abaixo.

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Hoje, a concepção de autocuidado que o Cfemea compartilha com as companheiras do Laboratório, que diz respeito à nossa vida, de cada uma, de nossas relações, de nossas comunidades, no mundo … o que somos, como nos vemos, como nos relacionamos … o que sentimos, como nos sentimos … como ser e se libertar das opressões. Criando laços entre nós e expondo nossos limites, assim como dizendo quais os limites que devo colocar para as outras pessoas, para não ser só uma mulher que cuida (dos outros).

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Pelo estabelecimento de diálogos com as mulheres ativistas em diversos movimentos sociais, em especial nos movimentos feminista e de mulheres brasileiro. Para nós, ativistas e defensoras dos diretos humanos, o autocuidado também passa:

• Pelo reconhecimento mútuo dos riscos que cada uma sofre, em diferentes frentes de luta;

• Pela ampliação e fortalecimento dos vínculos de solidariedade e reciprocidade que mobilizam o cuidado entre ativistas e fortalecem suas lutas por direitos.

• Pela pedagogia feminista e pelo diálogo intercultural para as mulheres se afirmarem como sujeitos autônomos e, coletivamente, enfrentarem a dominação patriarcal, a ordem heteronormativa, etnocêntrica e racista.

O Cfemea traz ao MST novamente, já que o movimento é parceiro do Cfemea há algumas décadas, a discussão de que o cuidado entre ativistas e o autocuidado são caminhos para/da transformação social que mobilizamos.

É condição do processo de autocrescimento individual, de formação de vínculos entre as ativistas e de fortalecimento de sujeitos políticos coletivos que as mulheres instituem. É em si uma estratégia de proteção e de empoderamento das mulheres.

É o caminho que escolhemos para lidar com as emergências, sem renunciar e para confirmar nossas estratégias feministas e antirracistas. “O cuidado entre ativistas é uma forma de intervenção política que oportuniza, às mulheres que estão no ativismo, lidar com elementos que bloqueiam sua trajetória de transformação no âmbito subjetivo.

É um caminho para interpelar o individualismo, o sexismo, o racismo e outras formas de discriminação que introjetamos e nos oprimem.

E, ao mesmo tempo, é uma maneira de lidar e buscar eliminar tais elementos dos discursos e práticas de quem quer transformar o mundo. O cuidado entre ativistas envolve corações e mentes das mulheres que estão na luta, para curar as feridas abertas pela violência da dominação. Por isso mesmo, insere-se no conjunto de reflexões e práticas alternativas que vêm sendo desenvolvidas a partir do feminismo.”

Laboratório Organizacional Feminista do DF

Na matéria de ontem (leia aqui) comentamos o que é o laboratório. Mas é importante relembrar alguns aspectos.

O Laboratório é uma experiência pessoal e social, que nos proporciona aproximarmos do coletivo e da consciência que pode guiar a transformação. Na vivência que realizamos em conjunto, experienciamos processos de autocuidado, realizamos rodas de cuidado, vivemos a oportunidade de criar novos laços e reforçar antigos, ao mesmo tempo em que estamos nos expondo e trazendo à roda nossas dificuldades, nossas alegrias e nossos sonhos.

No Laboratório, criamos um ambiente para organizar nossas ações de forma coletiva, organizada e com foco. Como nosso objetivo é criar um (ou mais) empreendimento coletivo que nos auxilie na luta pela autonomia econômica das mulheres, o Laboratório se inicia com uma jornada de autocuidado e, em fevereiro, se iniciará com a organização de uma empresa (cooperativa, empresa coletiva, associação – o nome você escolhe) que assumirá a responsabilidade pelo próprio Laboratório.

Essa empresa precisa dar conta da realidade de uma empresa coletiva real. Ela terá recursos a administrar, terá que cuidar dos horários e de como os cursos serão ministrados, vai organizar uma memória, vai realizar assembleias e vai superar problemas gerais. Vamos aprofundar nossos conhecimentos sobre a formação social na qual vivemos, suas caraterísticas e sobre a necessidade de criação de alternativas. Vamos nos conhecer, como classe social e como agentes de transformação. Assim vamos viver processos que nos auxiliem a chegar ao nosso objetivo – isso pode ser por meio de cursos técnicos ou de trocas de experiências.

Quando o processo do Laboratório se conclui (depois de 70 dias aproximadamente), ele não acaba. Começará a fase de organização de nossa empresa, em nosso caso (do MST no DF e Entorno), vamos provavelmente organizar uma cooperativa ou organizações econômicas de mulheres que atuem nas cooperativas das quais elas participam.

Nesse período, pós-laboratório, teremos processos de assessoramento, incubação e mentoria para a criação das cooperativas.

Uma coisa tem a ver com outra

Por quê começamos o Laboratório com o autocuidado e o autocuidado permeia o Laboratório em todo o processo? Sem liga, sem laços, sem respeito mútuo, sem compreensão dos nossos limites e das obrigações que temos, a empresa coletiva que vamos construir não vai se sustentar. E por falar em sustentar. A empresa que queremos criar não é uma qualquer, que se cria só para ter lucro e explorar outras pessoas.

Queremos uma empresa coletiva que nos traga resultados financeiros, boa parte de nosso trabalho não é remunerado e nem visto pelas pessoas em nossa volta, precisamos ganhar dinheiro para sustentar nossa vida e a vida das pessoas que estão em nossa volta. Por isso, a empresa que vamos construir tem que dar conta de ser um espaço para criar e gerar recursos para nos manter e para nos tirar das dificuldades que hoje enfrentamos, assim como tem que dar conta do cuidado ao qual nos submetemos como cuidadoras (dos filhos, dos mais velhos, das pessoas que precisam da gente) e como membras de nossas comunidades.

Precisaremos inventar essa empresa. E isso vai ter que ser na prática. Coisa que dificilmente aprenderemos em cursos, ainda mais esses rapidinhos.

O autocuidado é essencial. A proposta de vivermos o Laboratório Organizacional Feminista para a Sustentação da Vida tem vários sentidos: tirar mulheres da miséria, de forma coletiva e sustentável; aumentar a capacidade para gerar autonomia econômica e social para as mulheres; criar laços para a cooperação entre as mulheres, para nos libertar de opressões e violências que estão presentes no dia a dia do patriarcado; mostrar para outras mulheres que existem caminhos possíveis para superarmos nossas dificuldades.

Chegamos ao terceiro dia da jornada de autocuidado e cuidado coletivo entre ativistas com as mulheres do MST do DF e Entorno, hoje usamos a Técnica de Redução de Estresse entre Mulheres.

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Que trem bão! As mulheres de acampamentos e assentamos do DF e Entorno retomaram bem cedinho a jornada. Convivência e vivência coletiva, confiança, criação de laços. Tudo começou com o café da manhã, para as que estão hospedadas no Centro de Educação Popular Gabriela Monteiro e para as que vieram em caronas solidárias e apoiadas financeiramente pelo Cfemea.

Para o Cfemea e para o MST, o autocuidado e o cuidado coletivo entre ativistas é parte da estratégia para fortalecer, proteger, promover as mulheres que estão na lida para transformar o mundo.

Ousamos criar novas formas de nos organizar e novas estratégias para lutar, que dialogam e almejam intensificar esse momento tão fecundo do ativismo das mulheres, evidenciado no surgimento de muitos novos coletivos, nas várias iniciativas artivistas (art+ativismo), em tanta movimentação e protesto pelas ruas e na internet, nas centenas de comunidades virtuais, nos diversos blogs feministas e de mulheres negras, além dos grandes movimentos nacionais de mulheres.

A sustentabilidade do ativismo, para transformar o mundo

Só fortalecendo e ampliando a organização das mulheres vamos ter mais poder de apontar as violações de direitos, denunciar a violência, demandar justiça, criar alternativas, propor mudanças. Ao abrirem espaço na conflitiva e estreita arena política brasileira, os movimentos de mulheres e feminista orientam os processos de mudança pela a justiça socioambiental, a igualdade e o diálogo intercultural. Temos certeza que, democraticamente, é assim que se abrem as possibilidades de um futuro onde tod@s possam viver bem, desenvolver plenamente as suas capacidades, ser livres e ter direitos.

Aprofundar a democracia e garantir direitos é um grande desafio para as mulheres nos movimentos sociais e ativistas.

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Nossas lutas

Foi pela profundidade da nossa crítica feminista e com a força da nossa atuação política que nos instituímos como sujeito político na arena pública e conquistamos a cidadania. Questionamos profundamente a forma como o poder é exercido para dominar as mulheres, desde as relações mais íntimas, no espaço doméstico e familiar, no trabalho produtivo e reprodutivo, nas relações inter-raciais e interétnicas, nos movimentos sociais e no sistema político. Na luta política e democrática, conquistamos espaços que não existiam. Mudamos o mundo! Lutamos pelo fim da ditadura militar e, nas últimas décadas, enfrentamos muitas batalhas pela ampliação dos direitos das mulheres.

Hoje, vivemos uma ofensiva conservadora que ameaça os avanços até agora alcançados, exigindo das ativistas mais cuidado entre si, força para resistir, firmeza e criatividade para mudar esse quadro.

  • criminalização dos movimentos sociais
  • crescimento da onda religiosa, dogmática e fundamentalista
  • crescimento de todo tipo de violência, do racismo, homo/lesbo/transfobia
  • modelo desenvolvimentista injusto e predatório

Autocuidado e cuidado entre ativistas: para avançar na construção de outro mundo possível, com a participação das mulheres.

 

Citações

 

“Autocuidado é um ato político, é algo revolucionário pra gente

e perigoso pra quem quer nos oprimir.”

Lidi de Oliveira, PaguFunk

 

“Nas cidades, no campo e nas florestas brasileiras as ativistas

levantam a bandeira: Nosso corpo, nosso território: não se invade,

não se maltrata e não se viola.”

(autora desconhecida)

 

“Nos aproximamos pela humilhação,

e formamos laço pela sobrevida e

pela potência de nossas vidas e lutas.”

Tatiana Lionço (ativista do DF - Cia Revolucionária Triângulo Rosa)

Primeiro Território 

Para as mulheres ativistas e que se mexem para transformar o mundo é importante reconhecer que seu primeiro território é o próprio corpo, a dimensão do primeiro afeto. Muitas não percebem que deixam de lado seu corpo, sua saúde e sua vida, para cuidar das outras vidas que a cercam. Anulam-se em função de outros(as). Essa é a origem de suas dores, de seus traumas, de seu adoecimento. Reconhecer-se como seu primeiro território e importante para conhecer e delimitar os demais territórios de cuidado e de luta.

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Esse reconhecimento é importante para o Laboratório Organizacional Feminista, pois cuidando desse território original a gente pode dar os passos para o coletivo que nos inclua como sujeitas e capazes de gerar mudanças, promover revoluções.

Laboratório do DF

Depois dessa jornada, a coordenação, formada pelo Cfemea e pela direção do MST do DF e nordeste de Goiás e Minas, vai organizar Rodas de Autocuidado em todos os Acampamentos e Assentamentos de onde estarão se inscrevendo mulheres para a longa caminhada do Laboratório Feminista do DF, que se iniciará em 2 de fevereiro do próximo ano.

Nessas Rodas, vamos nos conhecer, vamos aprofundar nossos laços e também vamos conversar sobre as dificuldades que temos e termos que enfrentar para a construção autônoma de alternativas econômicas. Uma das questões que trataremos é a dificuldade de ler e escrever. Outra é a necessidade de uma alfabetização digital. Sabendo das dificuldades de cada uma e de cada coletivo, vamos estabelecer estratégias para superar os problemas. Não queremos soltar a mão das companheiras que têm alguma dificuldade. Mas se não tivermos a solução entre nós, vamos procurar meios para apoiar cada uma que queira se alfabetizar, que queira dominar o mundo digital, que queira superar seus limites.

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