Ivonio Barros Cinema negro e mitologia africana: ‘O Segredo de Sikán’ será filmado no Recôncavo Baiano O Recôncavo Baiano se prepara para receber, em outubro de 2025, as filmagens de O Segredo de Sikán, primeiro longa-metragem de ficção da cineasta cachoeirana Everlane Moraes. Por: Agência de Notícias das Favelas - 12 de agosto de 2025 Foto: vinícius Castro A produção, que se passa em um universo de realismo fantástico, revisita um mito africano para tratar de temas como protagonismo feminino, disputas territoriais e preservação cultural. Entre os nomes cotados para o elenco está a atriz Grace Passô, referência do teatro e do cinema brasileiro. A narrativa parte da lenda de Sikán, princesa da Nigéria antiga escolhida por uma divindade para guardar um segredo capaz de trazer paz ou guerra. No mito original, ela é acusada injustamente de revelar o mistério e é assassinada. Na releitura de Everlane, Sikán resiste: em vez de aceitar a condenação, se lança ao rio Odan e se transforma em um peixe mágico que atravessa séculos até chegar ao rio Paraguaçu, na Bahia, em busca de justiça e do retorno do sol para o seu povo. “Os mitos são, na maioria das vezes, contados por homens e acabam reproduzindo visões misóginas. Quis mudar essa lógica, transformando Sikán de personagem passiva em protagonista corajosa, capaz de reescrever o próprio destino”, explica a diretora. O mito chegou ao conhecimento de Everlane durante o período em que viveu em Cuba, entre 2015 e 2018, estudando na Escuela Internacional de Cine y TV (EICTV). Lá, teve contato com as obras da artista cubana Belkis Ayón, que representou visualmente a história de Sikán e que será homenageada no filme por meio da personagem Sara. O projeto já passou por laboratórios nacionais e internacionais e recebeu prêmios como Melhor Projeto em Desenvolvimento no BrasilCineMundi e no Hubert Bals Fund, da Holanda. Em 2023, Everlane viajou à Nigéria para conhecer o território de origem do mito e estreitar laços com a indústria cinematográfica local, Nollywood, segunda maior do mundo em produção de filmes. As gravações serão realizadas em Cachoeira e São Félix, cidades separadas e unidas pelo rio Paraguaçu, que será cenário central da trama. Na ficção, Cachoeira é uma cidade matriarcal privada do acesso ao rio e iluminada apenas por velas, enquanto São Félix, comandada por homens, retira do fundo das águas a luz que sustenta seu desenvolvimento. Com elenco formado exclusivamente por artistas negros, o filme pretende unir grandes nomes do cinema nacional a talentos locais. A produção é uma parceria da Carapiá Filmes e Pattaki Produções, com distribuição da Embaúba Filmes — mesma responsável por Marte Um, indicado ao Oscar. O projeto conta com apoio da Odé Produções e recursos da ANCINE (Fundo Setorial do Audiovisual), além do edital estadual Lei Paulo Gustavo. Artigo anterior: BRASIL: Cineastas negras reivindicam mais ações afirmativas para audiovisual Anterior Próximo artigo: BRASIL: Marcha das Mulheres Negras toma ruas do país nesta sexta (25/7) em defesa da vida e por reparação Próximo